Viver com Alma

Viver... com alma... pela calma dos dias... na intensidade de cada amanhecer... caminhar, caminhar... sem nunca me cansar... Viver... assim com um brilho no olhar... dispersar-me, encontrar-me... mas sem nunca me perder...

Nome: vivercomalma
Local: Portugal

De que vale descrever quem sou se o que sou está tanto em cada um daqueles que amo, teria então de descrever todos eles para que se pudesse lá encontrar um pedacinho de mim...

Sábado, Agosto 25, 2007


Viver com Alma


Viver
com alma
pela calma dos dias
na intensidade de cada amanhecer
caminhar, caminhar
sem nunca me cansar
Viver
assim com um brilho no olhar
dispersar-me, encontrar-me
mas sem nunca me perder...

Quarta-feira, Maio 02, 2007

abandono em Ti...









Se todo o ser ao vento abandonamos
E sem medo nem dó nos destruímos,
Se morremos em tudo o que sentimos
E podemos cantar, é porque estamos
Nus em sangue,
embalando a própria dor
Em frente às madrugadas do amor.
Quando a manhã brilhar refloriremos
E a alma possuirá esse esplendor
Prometido nas formas que perdemos.


poema de Sophia de Mello Breyner Andresen, foto de Luisa Sobral
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Sábado, Abril 14, 2007

deixar poisar...



A noite aproxima-se… saímos de casa a correr, com o missal na mão, com um lenço, uma garrafa de água, uma vela… tanta coisa… e sinto-me como se não estivesse preparada para alcançar tamanha graça… entro na Igreja e procuro um lugar onde tudo possa acompanhar de perto, enquanto lá fora as pessoas se vão tentando dispor numa cadeira, num pedaço de chão… o coro vai entoando o ‘Avé Maria’, as luzes vão-se apagando… e é em Maria que me centro, no desejo de permanecer como Ela naquele momento, tudo acompanhando e vivendo com a profunda certeza de que somos Filhos e que como tal nos devemos entregar nas mãos d’Aquele que tanto nos ama.

Os meus olhos vão-se iluminando com a pequena luz que começa a surgir do fundo da Igreja e que se aproxima, aproxima, até se tornar num agregado de pontinhos a iluminar cada rosto.

A celebração da Vigília Pascal começa, as leituras vão-se pronunciando numa língua que ainda me é estranha…contemplo… depois de alguns longos momentos ouvem-se os sinos e o Padre anuncia que Cristo ressuscitou… estranhamente vejo-lhe no rosto mais o anúncio da morte do que da Ressurreição… a alegria não vinha dali…veio precisamente do lugar onde tive medo de ficar, a alegria veio de fora, com palmas que foram abraçando toda a Igreja, chegando finalmente até ao lugar onde me encontrava…

Ali, no banquinho da frente, recordei cada momento em que O anunciei com palavras e gestos que em nada levavam a alegria e esperança da Ressurreição e no quanto essa alegria e Ressurreição surgiam nesses mesmos rostos.

Tudo isto me faz sentir que a graça não se prende nas minhas potencialidades, naquilo que consigo ser ou fazer pelos outros, mas na liberdade que Lhe dou para que seja Ele a ser e a fazer… Mesmo lá no fundo, bem de longe, não depende dos meus olhos, dos meus ouvidos, dos meus braços alcançá-Lo, a graça é apenas Sua… só me pede para ir ao Seu Encontro e para na delicadeza de cada dia abrir a palma da mão e O deixar poisar…

Hoje é esta a graça que Lhe peço , que cada um de nós O deixe poisar e que O abrace inteiramente… com cada fragilidade, com cada miséria…sabendo que nesse momento nada disso importa, Deus quer apenas o nosso abraço, apenas isso…

Que renasças nesse Abraço a cada dia! Uma Santa Páscoa!

Sexta-feira, Fevereiro 16, 2007

Maravilhas...




Maravilhas fez em mim
Minha alma canta de gozo
Pois na minha pequenez
se detiveram Seus olhos
E o Santo e Poderoso
espera hoje por meu sim
Minha alma canta de gozo
Maravilhas fez em mim

Maravilhas fez em mim
Da alma brota meu canto
O Senhor me amou
mais que aos lírios do campo
E por Seu Espírito Santo
Ele habita hoje em mim
Que não pare nunca este canto
Maravilhas fez em mim

“Eu tentava comunicar-lhes a minha experiência de Deus. Mas quanto mais falava, mais limitado me sentia. Não encontrava palavras que expressassem todas as minhas vivências, entre outras coisas porque era impossível. Que fácil era transmitir ideias, doutrina! Mas que difícil era comunicar experiências! Podia animá-los, motivá-los… Mas havia um limite a partir do qual eu não era capaz de fazer nada. Era o espaço reservado a Deus.” In Orar com Deus de Pedro Muñoz Peñas


Voltei a deixar-me envolver por Ti, deixei-me encontrar neste instrumento, neste gesto de Te levar aos outros pela suavidade das mãos que tanto Te vão encontrando a cada dia… Ainda sinto o coração a palpitar da primeira vez que as minhas mãos se ancoraram neste pedacinho de madeira e num só sopro foram saindo as primeiras notas. Apenas me lembrava de restos de canções sem sentido que não conseguiam expressar o quanto me sentia nas Tuas mãos… Sentava-me naquele banquinho do Cab, a experimentar notas e mais notas, até que pelas mãos daqueles que se deixaram ficar ali comigo a cada dia cheguei até Ti, encontrei as notas certas que Te faziam tanto ressoar cá dentro… Não consigo deixar de me emocionar ao lembrar a partilha deste Encontro na missa, os dedos tremiam tanto… o som saía tão fraquinho… não porque tinha medo de errar, mas porque a alegria de Te ter encontrado não cabia cá dentro!...
Hoje, depois de percorrer tantos olhares, vejo que esta é a forma mais autêntica de Te levar, esta é o meu modo de Te amar e de me deixar amar por Ti. De cada vez que me sento e te levo por esta música vejo o brilho no olhar daqueles que a ouvem, que aprendem cada pedacinho das suas notas: as crianças do bairro, as 80 crianças do Centro Juvenil, os jovens… posso falar das notas, da letra, do que ela me faz sentir, do que ela me fala de Ti, mas no final és sempre Tu quem ressoa no coração daqueles que a sentem…


Cá dentro há um grito, um grito que me impele a Ti, que arrasta cada pedacinho do meu ser e transforma a minha alma neste sorriso, na pequenez deste sorriso…

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Quinta-feira, Janeiro 11, 2007




Voa,

faz-te ao largo,

fecha os olhos e entrega-te

e mesmo que as tuas asas se quebrem,

confia que as de Deus te sustentam

e acalentam a fragilidade do teu coração.

Sábado, Dezembro 09, 2006

charco












Hoje o dia soou bem cedo…

Partimos com um jesuíta que vive em Timor há quarenta anos para uma visita aos postos de saúde a que dá apoio. Este homem, de face enrugada, com uma voz lenta e de gestos calmos entrega-se a esta missão de curar as feridas daqueles que por ele esperam dias e dias, tendo-o como única esperança…

Percorremos estradas tão íngremes que davam pavor, fomos a lugares que nunca tinha desenhado no meu pensamento e encantei-me com a delicadeza de cada olhar, de cada acenar das crianças que por nós passavam… é nesta humildade e beleza que Deus me molda e me conduz…

Este homem de face enrugada e de óculos a caírem-lhe pela face tem cerca de 80 anos, tem um curso de enfermagem e atravessa estas montanhas escarpadas diariamente desde 1975, percorre dois postos de saúde por dia, com o apoio de dois ajudantes timorenses. Através dele se cura também a esperança daqueles que se tornam mais difíceis de encontrar, através dele se curam malárias e dores, pelas suas mãos surge a vida de dezenas de crianças, por ele surgem os medicamentos e a primeira assistência num Timor que poucos se atrevem a conhecer. Umas vezes fá-lo na casa das pessoas, na varanda de uma casa, numa palhota de bambu construída pelos homens da aldeia ou num verdadeiro posto conseguido pelos dinheiros que angaria.

Foi num desses lugares, por uma estrada desbravada durante horas que encontrei as minhas asas… chegados a um vale, os nossos olhos deslumbraram-se com os arrozais verdes, com os homens e as mulheres descalços, de cestos às costas, a caminhar por entre estas águas; descobrimos casas feitas de bambu e colmo, com rostos risonhos a acenar-nos vivamente; ao fundo um lago deixava transparecer os longos pássaros que nele se banhavam; os pequenos cavalos caminhavam por entre a margem e os búfalos trabalhavam a terra puxados pelas mãos deste povo.

Aqui encontrei o charquinho, aquele lugar que de tão simples se torna tão belo e rico, que me revelou a face de Deus, tão marcadas naquelas asas transparentes… umas asas que sustentam a existência na simplicidade, sem grandes ornamentos… essas asas que me abraçam são o rosto de Deus na minha vida… Mal vi o pequeno charco pedi para descer do jipe, saltei para a margem e só consegui gritar de alegria!! Tinha encontrado as libelinhas! Estes pequenitos seres que me acompanharam desde Hong Kong, quando me debrucei na janela do avião e as vi aos milhares… várias vezes as descobri no seu voo repentino pelas ruas de Dili, mas foi neste pequeno charquito que se deixaram encontrar… faz-me pensar no quanto Deus se revela nestas pequeninas imagens e momentos, ao contrário dos grandes e brilhantes sinais nos quais o procuramos; fez-me pensar neste Irmão, no silêncio dos seus gestos e no quanto Deus precisa desse lado reservado, simples e sem grandes ornamentos para se poder manifestar, para se deixar encontrar…

Que este charco se torne o teu charco e que nas asas transparentes de Deus te deixes abraçar e que com elas consigas abraçar aqueles a quem Deu te pede para amar, mantendo esta transparência de quem tudo suporta mas que não pretende ser visto com grandes brilhos.

Um abraço sentido do outro lado do mundo

Domingo, Novembro 12, 2006

quem tudo dá...












Caminho pela praia, ao longe o sol vai-se escondendo, vai deixando um rastro vermelho que comove a alma... as pequenas ondas vão-me abraçando no caminho, envolvem-se na minha pele, fazem-me sentir acompanhada...
Caminho na linha do horizonte, quero ir mais além... a água percorre os meus tornozelos... continuo a caminhar no desejo de me deixar inundar profundamente,mas Deus pede-me para experimentar o sabor destas pequeninas gotas que tão delicadamente se fazem presentes... ao Seu ritmo e não ao meu...
Esta tem sido a minha oração, esvaziar-me, reduzir-me, calar-me para Deus viver, brilhar e fazer soar intensamente a Sua voz cá dentro.
O dia amanhece, os galos já cantam há horas, reconheço lá fora, bem debaixo da janela do meu quarto os passos de uma pequena galinha que debica algumas folhas com uma dúzia de pintainhos em volta, ao longe ouço ao de leve o som de uma flauta... são seis horas da manhã... deixo-me comover nestas notas, no quanto através delas Deus me pede para ser instrumento... o meu dia começa aqui. Refresco-me com o púcaro de água que resta no fundo do balde ou que às vezes a torneira consegue deitar, visto-me, calço os chinelos e caminho até à Pré-escola. As crianças vão-me olhando com um sorriso, vão soletrando o meu nome numa corrida envergonhada até ao meu abraço... com a mochila às costas correm em direcção à sala. Desta vez a porta não abre... temos que tirar os vidros da janela para entrar... um pai oferece-se para entrar e com grande dedicação troca a fechadura estragada por uma da porta lá de casa...
Comovo-me ao ver o envolvimento das mães a varrer a sala, a ir a casa procurar uma esteira para as crianças se sentarem, a organizar os brinquedos que ficaram espalhados no dia anterior e a recostar-se numa cadeira para cantar os bons dias connosco... sento-me em roda com as quase quarenta crianças e começo a rezar... elas acompanham cada gesto, cada palavra, mesmo sem perceber... confiam-me cada momento... sorriem com as canções, com as danças, com coisas tão simples...
As mães acompanham-me a cada passo... hoje sentam-se em volta de uma mesa e cosem pedaços de tecido para fazer almofadas, mesmo sem nunca terem usado agulha... e aí se deixam ficar, com grande entrega, depois de tanto insistir que seriam capazes de o fazer... ao fim de uma hora estão trinta e seis almofadas prontas... os seus olhos estão radiantes...
Questiono-me sobre a minha entrega perante as imagens destes momentos... quem serve e quem é servido?...
Dou graças a Deus por me trazer até cá, por aprender tanto com quem tudo entrega e partilha o melhor de si... com quem se esvazia de tudo para deixar que o melhor do outro preencha cada cantinho da alma...
Caminho pela praia, bem devagar... hoje consigo saborear cada gota que se envolve nos meus passos...
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